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Pelo treinamento, mas não pela certificação

Publicado por Vinicius Manhães Teles há aproximadamente 1 ano.

Anunciamos recentemente alguns treinamentos de Scrum (aqui e aqui), dentro os quais dois são direcionados a formar CSMs (Certified Scrum Masters) e um não. Apesar de nosso apoio aos treinamentos e ao conteúdo dos mesmos, bem como à metodologia em si, gostaria de deixar claro que somos contra certificações na área de desenvolvimento ágil, especialmente a Certified Scrum Master.

O que significa isso? Quer dizer que você certamente deve participar do curso se tiver uma oportunidade, porque o conteúdo é excelente. Mas, não deveria ir pelo certificado, pois a validade do mesmo é, no mínimo, muito discutível. Para obtê-lo, não é necessário fazer prova, nem comprovar qualquer tipo de experiência com Scrum. Basta participar do curso e prestar um mínimo de atenção.

Recentemente, Scott Ambler fez uma crítica severa a essa certificação na prestigiosa Dr. Dobbs Magazine. Segue a tradução livre:

"Ética na certificação Scrum

A Scrum Alliance continua dando um vexame, bem como a comunidade ágil em menor escala, na medida em que continua a operar o programa Certified Scrum Master (CSM). Para "conquistar" essa designação, você tem que participar de um curso de dois dias, ao final do qual, o instrutor decide se irá lhe conceder o certificado ou não. Não há nenhum teste e parece que há mais de 99% de aprovação. Embora a Scrum Alliance não divulgue os números, diversos instrutores Scrum me contaram, privadamente, que se umas poucas dezenas de pessoas tiverem tido seu certificado recusado até hoje, já é muito. Alguns instrutores Scrum se gabam de ter reprovado algumas poucas pessoas que apenas se sentaram no curso e ficaram lendo email durante a aula, ao invés de escutá-los.

É claramente enganoso dizer que você é um "mestre certificado" (certified master) de alguma coisa depois de um curso de dois dias. Embora haja uma discussão atualmente na comunidade Scrum sobre se o problema é o uso da palavra "certificado" ou "mestre", isso apenas serve para distrair as pessoas do problema real. A partir de discussões em diversas listas, fica muito claro que as pessoas que não são CSM reconhecem a trapaça, pessoas que são CSM também a reconhecem e até mesmo os instrutores CSM reconhecem a trapaça. Ainda assim o programa continua em operação.

A Scrum Alliance está trabalhando em uma nova certificação atualmente, com um pouco de consistência, embora em minha opinião, eles tenham perdido o imperativo moral para fazer isso há muito tempo. As pessoas envolvidas com a Scrum Alliance optaram, há alguns anos, operar o programa de certificação atual e tiveram tempo de sobra para solucionar as questões éticas relacionadas. Ética é uma reflexão sobre as escolhas conscientes que fazemos e a Scrum Alliance claramente fez as suas.

O desafio que temos pela frente é o fato de muitas pessoas boas terem escolhido se tornar CSMs, mas suas reputações estão em risco em função das ações de outros. Nem tudo está perdido. Há várias maneiras de restabelecer um alto teor ético:

Organizações também podem agir de forma ética. Elas podem solicitar que seu pessoal siga uma ou mais das recomendações acima para todos os tipos de certificações, não apenas CSMs. Elas também podem optar por promover um código de ética dentro da área de TI. Eu sugiro fortemente o que foi desenvolvido pela ACM/IEEE-CS (www.acm.org/constitution/code.html)."

Para finalizar, gostaria de reafirmar nosso apoio aos treinamentos de Scrum, por ser uma excelente metodologia de gestão e planejamento e porque tais treinamentos têm um ótimo conteúdo. O Juan e o pessoal da Innovit estão dando uma enorme contribuição aos profissionais de software ao trazerem esses treinamentos de Scrum para o Brasil. Entretanto, embora mantenha meu apoio ao curso, compartilho com Scott Ambler e outros, o repúdio pelo processo de certificação que, no caso do Scrum, é particularmente enganoso.

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Comentários (3 até o momento)

  1. Charles Abreu disse aproximadamente 8 horas depois:

    Eu aprecio muito o trabalho do Scott Ambler, especialmente seu trabalho no campo de orientação a objetos e refatoração de bancos de dados. Mas quando entra na área 'menos técnica' da coisa, ele às vezes parece deixar a emoção falar muito alto e perde um pouco da objetividade que tanto admiro nele. E essa é a impressão que eu tiro dessa crítica que ele fez - e não é difícil achar uma explicação para o quê motivou a sua crítica.

    Eu sou muito resistente às certificações, especialmente essas que avaliam, digamos, a competência de alguém liderar outras pessoas. Mas não acho que o bom caminho seja crucificar a Scrum Alliance e escolher uma outra instituição com 'imperativo moral' para decidir quem é competente ou não a através de uma entrevista e uma prova rigorosa, por exemplo. Acho que os próprios valores e princípios do manifesto ágil já supõem uma abordagem muito mais simples e eficaz para aumentar as chances de acerto na contratação e retenção de profissionais. Se acreditamos tanto no desenvolvimento iterativo, no contrato de escopo flexível e no aprendizado contínuo, por que simplesmente não usamos estes mesmos valores e princípios para admitir e demitir as pessoas com quem trabalhamos da mesma forma como propomos fazer com as empresas com as quais trabalhamos?

    Lembrando de uma fala sua, Vinícius, às vezes perdemos tanto tempo criando critérios complicadíssimos para acertar na contratação definitiva que esquecemos que podemos simplesmente criar meios de não ficarmos presos para sempre em uma má escolha inicial.

  2. Vinícius Manhães Teles disse aproximadamente 8 horas depois:

    Oi, Charles.

    A questão essencial que o Scott levanta tem a ver com:

    1. Os termos "certified" e "master".
    2. O fato de tais termos criarem uma expectativa sobre as pessoas, que não corresponde ao que realmente está por trás.
    3. O fato de tais termos serem designados a alguém que apenas freqüentou dois dias de curso.

    A coisa é estruturada de uma forma tal que fica muito fácil ter a impressão de que alguém está "comprando gato, por lebre". Não que o curso seja ruim, pelo contrário, é ótimo. Essa impressão tem a ver com a imagem que se associa a um Certified Scrum Master. É uma designação que traz à mente a idéia de uma pessoa extremamente qualificada, se não não seria "master" e "certified" ao mesmo tempo. Em suma, esse é o aspecto considerado inadequado: através do uso de termos fortes, associados a um processo de avaliação praticamente nulo, gerar nas pessoas uma expectativa exacerbada sobre o profissional que está por trás da designação. Nesse aspecto, concordo com o Scott. No mínimo, a Scrum Alliance, que sabe desse problema há muito tempo, já poderia ter feito alterações no nome ou tomado outras providências.

    Grande abraço, Vinícius.

  3. Charles Abreu disse aproximadamente 10 horas depois:

    É verdade. O nome do curso não é legal pela idéia errônea a que ele pode remeter.

    Mas o conteúdo do curso é excelente! Esqueci de reafirmar isso e não queria deixar a impressão de estar criticando o curso em si.