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O mercado está mudando?

Publicado por Vinicius Manhães Teles há mais de 5 anos.

Há alguns dias o Juan lançou a seguinte pergunta em algumas listas de Desenvolvimento Ágil: [O mercado esta mudando ou é impressão minha?][1]. Já respondi nas listas, mas acho que o assunto é suficientemente válido para responder aqui também. Esta é a minha impressão sobre o assunto: Oi, Juan. Minha resposta curta para a sua pergunta é: sim, o mercado está mudando. Ele está sempre mudando. :-) Mas, talvez não tanto assim quanto gostaríamos e, possivelmente, não na direção que desejamos. Uma das mudanças mais perceptíveis é que cada vez mais gente tem ouvido falar de desenvolvimento ágil. Mas, isso não quer dizer necessariamente que cada vez mais gente esteja adotando métodos ágeis. Certamente, cada vez mais gente DIZ estar usando métodos ágeis. Mas, a distância entre o DIZER e o FAZER é imensa, sobretudo nesta área. Acredito que, daqui por diante, veremos cada vez mais gente falando sobre desenvolvimento ágil, mas continuaremos a ver poucos usando. Há algumas razões fundamentais para isso. Desenvolvimento ágil não tem a ver com Scrum, XP, FDD, Lean ou seja lá qual for o nome. Tem a ver, acima de tudo, com a maneira como encaramos desenvolvimento de software. Tem a ver com a compreensão da verdadeira NATUREZA do desenvolvimento de software. Os anos passam, mas a maioria absoluta das pessoas não consegue se livrar da idéia de que desenvolver software seja igual a construir prédio. As conseqüências desta dissonância cognitiva são infinitamente mais sérias do que a maioria de nós gostaria de acreditar. Escrevi exaustivamente sobre isso na [minha dissertação][d] (cápitulos 3 e 4), então, não vou me estender aqui. Apenas resumirei porque isso é tão prejudicial. O que uma empresa produz é resultado de como ela está estruturada. Quem tem autoridade para dizer como deve ser a estrutura de uma empresa é quem está no topo. Então, a estrutura de qualquer é empresa é, no fim das contas, o resultado do modo de pensar, da mentalidade, de quem está no comando. A mentalidade da maioria dos empresários, diretores e gerentes no mundo inteiro é, com raríssimas exceções, arcaica e incompatível com o trabalho de desenvolver software. Quando o topo da empresa não entende o tipo de mentalidade necessária para se desenvolver software de forma bem sucedida, não há santo que possa fazer milagre. E eu garanto, a maioria absoluta das pessoas que estão no comando das empresas não entende uma vírgula do que significa desenvolver software. Isso inclui, certamente, a maioria absoluta dos CIOs. Não é à toa que eles buscam recorrentemente coisas como CMMI, PMBOK, MPS.BR, ITIL etc, todos absolutamente incompatíveis com a NATUREZA do desenvolvimento de software. A mentalidade por trás destas aberrações é inútil, quando o assunto é software, mas casa perfeitamente com a mentalidade da maioria dos gestores. E não pára por aí. Nas universidades, a situação é igual ou pior. Veja o caso da UFRJ, por exemplo. Neste semestre, o professor de engenharia de software, percebendo a crescente movimentação em torno de métodos ágeis, resolveu gastar boa parte do seu tempo para mostrar aos alunos que métodos como o XP não funcionam. Afinal, se fôssemos fazer um prédio com XP, aconteceria mil e uma coisas horrendas. Nisso ele está certo. O problema, como sempre, é a maldita distinção entre construir prédio e desenvolver software, a qual, seria óbvia para uma criança, mas é impossível de ser percebida por um Ph.D(eus). Olha que loucura, em uma universidade do quilate da UFRJ, o cidadão, só porque é Ph.D.(eus), não precisa se dar ao trabalho de estudar sobre métodos ágeis, nem muito menos usá-lo, para já saber, desde criancinha, que não pode dar certo. E claro, um conhecimento destes, tão valioso, não pode ser mantido só para ele. Também é preciso passar adiante para os alunos, como se fosse necessário. Afinal, eles já estão todos estagiando em empresas entupidas de documentos e péssimas práticas de desenvolvimento até o último fio de cabelo. Sempre fui muito otimista, em tudo. Mas, em se tratando de desenvolvimento ágil, acho que meu otimismo se foi. Foram precisos seis anos para isso acontecer, devo dizer, mas se foi. E a razão está lá em cima, no topo das empresas, no topo das universidades. Está lá onde a mediocridade e a incompetência imperam, ao menos em se tratando de desenvolvimento de software e gestão de pessoas. Percebi, com o tempo, que podemos fazer diferença na base, sim, mas é muito pequena e, freqüentemente efêmera. Fiquei tempo suficiente nesta área para ver equipes adotarem XP, funcionarem super bem durante algum tempo e, mais a frente, serem impedidas de continuar porque a organização passa minar o andamento do grupo. É como um corpo estranho, que é expelido naturalmente pelas nossas células. Só para dar um exemplo. Em 2003, nós fizemos um projeto XP para a Vale do Rio Doce. Foi um projeto lindo, com tudo que se tinha direito. Até contrato de escopo negociável. As áreas de negócio amaram tudo o que foi feito. Adoravam os desenvolvedores. Depois que o sistema foi colocado no ar, foram encontrados apenas 3 bugs durante os seis meses seguintes. Isso é nada em um projeto de mais de um ano, com mais de dez pessoas envolvidas. O projeto foi um sucesso em praticamente todos os quesitos que se pudesse imaginar. Mas, aí é que estava o problema. A última coisa que alguém quer é um projeto de sucesso! Afinal, como ficam os demais? Quando o projeto acabou, tudo foi feito dentro da Vale para que nunca mais isso se repetisse. Acredite, não foi a única vez que vi isso acontecer. Em seis anos, eu vi muita coisa começar bem e, mais a frente, acabar. Por que? Porque desenvolver software com a mentalidade ágil não é compatível com a mentalidade de quem manda. Isso é mais do que suficiente para limitar as mudanças na área de software. Acredito que vai levar muito tempo para que as empresas passem a ter gestores que compreendam não apenas o que é fazer software. Mas, o que é fazer um trabalho do conhecimento. A maioria absoluta dos gestores tratam seus funcionários como se fossem crianças. Fica parecendo que os piores imbecis são justamente os que mais freqüentemente são escolhidos para comandar as empresas. Não parece apenas, isso realmente acontece e dói ver o quanto isso é comum. Enquanto estes estiverem lá em cima, vamos ouvir falar muito sobre desenvolvimento ágil. Mas é só. Aliás, não é não. Tem coisa pior. Vamos ver pessoas fazendo barbaridades e dizendo que estão usando desenvolvimento ágil. Para quem ainda estiver no ramo de consultoria, isso não é necessariamente ruim. Essa área vai bombar. Vamos ter cada vez mais espaço para cursos e consultoria em desenvolvimento ágil. O interesse só vai crescer daqui por diante. Não necessariamente pelos méritos, mas porque alguém ouviu dizer que agora o grande lance é fazer software com a ___________ (preencha com a metodologia ágil preferida). O problema dos gestores não afeta apenas o desenvolvimento de software. Ele é muito mais sério e muito mais abrangente que isso. Entre em qualquer empresa grande e o que você verá é um bando de trabalhadores do conhecimento sendo tratados como pedreiros por um bando de incompetentes que não conseguem fazer nada melhor que jogar tempo e dinheiro na lata de lixo. O nível de desperdício de talento, tempo, dinheiro, oportunidades etc é tão colossal que eu realmente não consigo compreender como alguém consegue trabalhar em uma empresa grande atualmente. Claro, existem exceções. Pouquíssimas, mas existem. São apenas isso, exceções. Desejo muita sorte e sucesso para quem continua lutando para mudar este panorama. Não tenho dúvidas de que as coisas irão melhorar ao longo do tempo. Mas, acho bastante improvável que uma mudança significativa aconteça no curto ou médio prazo. Enquanto as pessoas chegarem no topo das empresas com a mentalidade que temos hoje em dia, enquanto os professores universitários continuarem ensinando lixo, enquanto as empresas continuarem a ganhar dinheiro apesar das práticas de administração arcaicas que utilizam, enquanto nós aceitarmos trabalhar para estes idiotas, vai ser complicado. Desculpa pelo pessimismo. Não foi sempre assim. Foram necessários seis anos, seis turmas de XP na UFRJ, literalmente centenas de apresentações de XP em todo o Brasil, um mestrado, não sei quantos cursos, vários mentorings, alguns projetos de desenvolvimento XP, algumas conferências no exterior, um livro e mais um monte de coisas que eu não lembro, para me dobrar. E antes que alguém pense que o problema era o XP e que tudo poderia ser diferente se tivesse sido Scrum, FDD, Lean etc, não se enganem. O buraco é mais embaixo. Se você conseguiu chegar até aqui e prestou atenção ao que estou dizendo, tudo se resume a uma coisa: mudar é difícil? É. Mas, ainda é a parte fácil. O difícil mesmo é mudar de vez. O Kent Beck tem um exemplo ótimo. Segundo ele, parar de fumar é fácil. Tanto que tem gente que já parou várias vezes. :-) O problema é parar e nunca mais voltar a fumar. É a mesma coisa. Um monte de gente vai conseguir mudar para desenvolvimento ágil. Poucos conseguirão sustentar esta mudança. E eu adoraria estar falando isso de orelhada. Mas, é que eu vi as pessoas voltarem a fumar um número suficiente de vezes para saber que é ótimo ver mais movimentação atualmente sobre desenvolvimento ágil. Mas, acredito que seja ingênuo achar que isso implique em uma mudança significativa. Muitos tentarão e a maioria vai voltar às práticas antigas, simplesmente porque todos os incentivos nas empresas giram em torno delas e isso continuará assim por muito tempo. Apesar de tudo o que disse, torço, profundamente, para estar absolutamente equivocado! No mais, redobrem seus esforços! O desafio é bem maior do que parece à primeira vista. [1]: http://br.groups.yahoo.com/group/visaoagil/message/591 [d]: http://www.improveit.com.br/xp/dissertacaoXP.pdf

Tags  | 6 comentários

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Comentários (6 até o momento)

  1. Daniel Wildt disse aproximadamente 3 horas depois:

    Vinicius, como sempre, ótimas colocações cara. Vou ir falando aos poucos sobre a mensagem... Sobre o "DIZER e o FAZER". Vejo muitos times dizerem que estão usando metodologias ágeis. Vejo estes mesmos times fazerem horas extras e indo contra os princípios do manifesto ágil. O principal problema para se adotar metodologias ágeis é a mudança cultural, na pessoa e no time. Vai do mesmo exemplo de parar de fumar. Sobre buscar modelos de qualidade como MpsBr, CMMi e etc, para dizer que sabe desenvolver software. Os caras ficam lendo coisas que te falam "O que fazer" e escutam uma outra adotando práticas que geram burocracia de forma contínua para implementar o "como fazer". E dizem que odeiam metodologias ágeis e que elas não funcionam. Já vi muita gente quebrar a cara, empresa demitindo toda a equipe de desenvolvimento, projeto fracassado e tudo porque a realidade nunca veio a tona. Este é o primeiro benefício de se usar metodologias ágeis, a realidade aparece muito rápido. Em poucos dias você descobre coisas sobre um projeto que com todos os mecanismos de ocultação disponíveis nas equipes se demora muito tempo para se encontrar. Aí entra o testador parceiro que não loga defeito, o cara de qualidade que não acha nada de errado e projetos que sempre aparecem na gerência como projetos perfeitos. E quanto aos consultores e caras que se dizem experts em metodologias ágeis? Caras que vendem algo ao mercado que não reflete o que se busca com os princípios e valores ágeis. Quando era consultor eu ajudava as equipes a melhorar porque eu queria que elas fossem mais efetivas, que se comunicassem mais, que tivessem um processo de melhoria contínua visível e acessível a todos. Passava muito pouco tempo ensinando uma determinada metodologia ágil. Passava muito tempo falando sobre liderança, sobre cooperação, sobre como aprender e como ensinar. Aí entrava Toyota, Deming, Paulo Freire e qualquer coisa que ajudasse na tal mudança cultural. Quando entrava em campo, o time ia aprendendo com as práticas, evoluindo e buscando fraquezas a serem atacadas com novas práticas, mas os princípios e valores sempre estão por lá, nunca são esquecidos. Aí se tem um ambiente legal, mas muito difícil de se alcançar. Usar metodologias ágeis para mim não está atrelado a ter projetos de sucesso. Se os projetos hoje atrasam, eles podem continuar atrasando, mas agora as equipes ganharão novas ferramentas e principalmente, terão uma mentalidade de equipe, cooperação e melhoria contínua para ajudar nos seus processos. E o ensino em Faculdades? É loucura cara! Muitos Professores não se atualizam! E se negam a acreditar que metodologias ágeis seja compatível com UML, com documentos de caso de uso, ou qualquer coisa relacionada a engenharia de software. Acham que tudo o que foi aprendido até então não é mais usado, pois eles leram que usar metodologias ágeis significa não ter documentação, não planejar, apenas ficar argumentando, discutindo e fazendo código. Esta definição do que eles acreditam eu devo a uma tirinha do Dilbert que li estes dias. :-) Sei lá cara. Eu sigo aqui no Rio Grande do Sul com o XP-RS (http://xp-rs.blogspot.com) que a cada semana ganha novas pessoas que buscam entender melhor o que são as metodologias ágeis e como as equipes podem ganhar com elas. E como sempre, a comunidade segue contando com os teus pensamentos, seja como consultor ou como desenvolvedor. Abraço!
  2. Lucas Húngaro disse aproximadamente 3 horas depois:

    Excelente opinião/desabafo. Reflete exatamente o que eu penso: a maior parte do problema vem de cima e, embora eu não desista de lutar, começar meu próprio empreendimento parece cada dia mais a melhor solução. Uma coisa que o Daniel disse realmente me irrita bastante: projetos que chegam "perfeitos" à gerência. Eu NUNCA vi um projeto desenvolvido em waterfall ser entregue corretamente, ou seja, **no prazo e funcionando**. Mas, para a maioria dos gerentes com MBA "carne de vaca", se você jogou um projeto no ar dentro do prazo, o projeto foi entregue corretamente e entra para as estatísticas de sucesso, mesmo que seja absolutamente inutilizável e fique o dobro do tempo de desenvolvimento sendo corrigido para chegar em algo minimamente aceitável. Decepcionante.
  3. Carlos Brando disse 2 dias depois:

    Gostei...
  4. João José disse 3 dias depois:

    Fico muito triste em ver você tão desanimado com as metodologias ágeis, eu, como muitos aqui, tive meu primeiro contato com XP e MA através das suas iniciativas. Porém, seus argumentos são válidos e realmente não posso discordar de você. Só que, como um empreendedor, não posso deixar de ver uma oportunidade, um mercado se formando, uma possibilidade de inovação, de ir contra a massa e me destacar. Vejo a MA como uma solução economicamente viável de desenvolver software de qualidade e eficaz. E acho que este é o objetivo final de todas as propostas da Eng. Soft. Estou formando uma empresa, e como uma estratégia de marketing iremos desenvolver alguns produtos, e para isso não abrimos mão de utilizar as práticas de desenvolvimento ágil. Não vou entrar no mérito FALAR/FAZER, mas tentarei utilizar a metodologia para desenvolver melhor. E tenho certeza que isso me fará ter um diferencial de mercado que ajudará muito no sucesso ou não da empresa. Não estou dizendo que prefiro que a comunidade de MA não se desenvolva no Brasil para que assim eu tenha meu mercado. Estou dizendo que há essa oportunidade e os que aproveitarem, num futuro, mostrarão àqueles desacreditados que MA é uma forma de desenvolver e pode dar resultado. Bastará aos outros seguirem os rastros. Bem, eu acho que você, Vinícius, deve ter uma idéia parecida com a minha, pois ainda utiliza metodologia ágil na sua empresa. E acredito que muitos outros, empreendedores ou não, terão o mesmo pensamento e seguirão utilizando as metodologias ágeis, bastando ao tempo dizer se o mercado irá mesmo mudar ou não. E que a ousadia presentei com bastante sucesso àqueles que tentaram, pois só ganha na mega-sena quem aposta.
  5. Rafael Walter disse 9 dias depois:

    Existe de fato uma demanda reprimida por sistemas adequados nas corporações (e empresas de todos os tamanhos). A grande prova disso é a proliferação de planilhas e outras formas de controle paralelo nos diferentes departamentos, em todos os níveis empresariais. É um esforço dos próprios usuários (muitas vezes sem o conhecimento da área de TI) em verdadeiramente resolver/simplificar um problema crítico do dia-a-dia. Isso com agilidade e custo adequado. Por outro lado, existe uma cobrança em nível executivo para aumentar a produtividade e a margem de lucro das empresas. A área de tecnologia é demandada para transformar "Tecnologia da Informação" em "Tecnologia de Negócios" (obrigado, Carlos Espanha!). Respondendo rapidamente, e de fato, às tranformações que o mercado demanda. Ou seja, VERDADEIRAMENTE as empresas precisam de desenvolvimento ágil. Mas não enxergam isso. Por que existe esta miopia? Nas corporações, a resposta é o medo. A quem interessar possa, Corinne Maier faz um diagnóstico interessante deste fato em seu livro "Bom dia, preguiça". Nas pequenas empresas, o desafio é ter fôlego financeiro para desenvolver uma solução adequada. Ficam algumas perguntas: o que eu posso fazer diferente no meu dia-a-dia, começando hoje, para transformar esta situação? Quais são as oportunidades que estão se apresentando hoje? Quais virão amanhã? Aliás, como será que a Thoughtworks está lidando com esta questão?
  6. Fábio Barros disse 13 dias depois:

    Não tem com o que ficar desanimado não, rapaz. Mudanças que envolvem gente são assim mesmo, Demandam tempo. O problema é que as pessoas ficam muito arraigadas a certos paradigmas e dogmas e pra largar é difícil. O movimento ágil já conseguiu grandes vitórias e acho que tem um grande futuro, muito potencial a realizar e a evoluir também. A semente já foi plantada. A critica das práticas tradicionais de Gerenciamento de Projetos pela turma do MA tá ajudando a evoluir esta disciplina e isto é um caminho sem volta. Parabéns pelo blog. Um abraço!