O preço da "modernidade"
Publicado por Vinicius Manhães Teles há 3 meses.
Pára o mundo que eu quero sair! Isso foi uma das coisas (mais leves) que disse nos últimos dias, no auge do desespero. Nas últimas duas semanas, fui brindado com uma série de eventos que parecem ser o preço da "modernidade", segundo uma das protagonistas. Do que estou falando? Da dependência cada vez maior que temos sistemas porcamente construídos. Veja só:
Continental x dólar do dia
Fiz uma reserva na Continental Airlines por telefone. No dia seguinte, fui até a loja deles, no centro do Rio, para efetuar o pagamento. Duas pessoas já estavam sendo atendidas na minha frente e eu era o próximo. Tive que esperar uma hora e meia! Isso porque eu era o primeiro da fila. Qual a razão? o SISTEMA. Os atendentes da loja estavam lutando para fazer o trabalho deles, apesar do sistema, que pelo que pude notar, só atrapalhava. Em um dos casos, o atendente explicou para o casal à minha frente que a operação inteira (uma remarcação de um vôo) levaria muiiiiito tempo, embora tivesse que ser concluída aquele dia. Ele sugeriu que o casal voltasse outro dia para pegar as novas passagens, pois ele ficaria após o expediente, tentando dar conta de tudo o que era necessário fazer no sistema, para aquele casal e outros casos que foram acumulando-se ao longo do dia.
Quando chegou a minha vez, o trabalho consistia em passar meu cartão de crédito na maquininha e registrar no sistema. A primeira parte era fácil, a segunda um tormento! Depois de pouco mais de UMA HORA (para receber um pagamento!), tudo resolvido. O problema, mais uma vez, era o raio do sistema. Parece que o atendente tinha que usar o câmbio do dia anterior e não estava conseguindo. Depois de inúmeras ligações, apelar para o gerente, verificar anotações, rezar dois pai-nossos e três avê-marias, o cidadão conseguiu. A essa altura, a fila já tinha crescido substancialmente e eu finalmente fui embora, depois de passar quase três horas tentando fazer uma operação que deveria ser infinitamente mais simples.
Imposto de Renda x impressora
Abril é o mês do Imposto de Renda, que "alegria"! Como bom usuário de Mac, baixei a versão em Java do programa da Receita. Depois de preencher tudo, hora de imprimir. Nada feito, a impressão saía completamente errada. Bug! Tenta daqui, tenta dalí, não teve jeito. Tive que apelar para o detestável Windows. Argh! Para piorar o problema, minha impressora tinha dado defeito e eu realmente estava precisando daquela impressão. Então, pegamos a impressora da sogrinha emprestada, o que nos leva ao próximo tópico.
Driver HP x Windows
A nova impressora funcionou no ato assim que a conectei no Mac. Foi o mesmo comportamento de todas as outras vezes que tive que conectar uma impressora em um Mac. É plugar e sair usando. Mas, como disse antes, tive que apelar para o Windows, onde a coisa é bem diferente. Lá fui eu tentar configurar a impressora da HP. O Windows não reconhecia, então, vamos baixar os drivers da HP. Que bela surpresa foi descobrir que os mesmos não funcionavam no Windows. Bug infinito na porcaria dos drivers da HP. Não teve santo que conseguisse fazer aquilo funcionar. Tentei em dois computadores diferentes e nada. Quando meu nível de irritação e ódio do Windows pareciam se tornar incontroláveis o Tapa deu uma ótima idéia. Arruma algum software que te permita imprimir em PDF. Boa, Tapa! Esta operação, a propósito, é nativa em qualquer Mac. Mas, no Windows (argh), tem que caçar algum programa que faça isso. Felizmente, logo achamos o Bullzip PDF Printer. Depois, transferi o PDF criado para o Mac e, finalmente, consegui imprimir a porcaria da declaração. Neste vai e vem, tenta daqui, se desespera dalí, foi-se uma boa parte da tarde. E tudo começou no bug do programa da Receita. Que, aliás, merece um comentário à parte.
Quem faz o programa da Receita é o SERPRO. Há alguns anos, eu e o Rodrigo, que foi meu sócio na Improve It, fizemos uma palestra de XP em um evento do SERPRO, aqui no Rio. Lá pelas tantas, uma senhora levanta a mão e lança a seguinte pérola:
"Pelo que estou entendendo, este negócio de XP é para empresas que fazem as coisas de qualquer jeito, tipo a Microsoft (essa parte eu gostei). Mas, nós somos o SERPRO, fazemos softwares críticos para a população brasileira. Não podemos fazer as coisas desta forma."
O Rodrigo ficou vermelho de raiva com o comentário infeliz e começou a contestar freneticamente, quando lhe pedi licença e devolvi à senhora a seguinte pergunta:
"Minha senhora, aqui no SERPRO vocês costumam utilizar testes automatizados para os softwares que produzem?"
Ela me respondeu que não. Que havia um grupo que estava começando a estudar este assunto, mas ainda não era uma prática usada por lá. Então, expliquei à nobre colega, tão preocupada como o povo brasileiro, que em XP teste automatizado é a norma usual para tudo o que é produzido. A preocupação com qualidade está acima de qualquer coisa, mas não é medida em palavras, mas sim em testes automatizados que executem perfeitamente, durante todo o ciclo de vida do aplicativo. Àquela altura, ela calou-se e assim permaneceu até o fim da apresentação. Em todo caso, aqui e ali via-se as pessoas escondendo as risadinhas. Pois é, lá se foi quase uma tarde inteira perdida como resultado da nobre preocupação com os softwares feitos para a população brasileira!
BB x cadastro
Na última terça, ao tentar pagar o almoço, descubro que o cartão do banco não estava passando. Felizmente, tinha algum dinheiro e paguei. Pouco depois fui ao banco sacar uma grana e descubro que o cartão definitivamente não estava funcionando. Mais tarde, já em casa, tento ligar para a Central de Relacionamento BB (nome pomposo) e descubro que não posso falar com um ser humano, a menos que eu digite minha senha de quatro dígitos (da qual nunca tinha ouvido falar). Como eu não tinha, não podia falar com ninguém, a não ser com a máquina, que informava que eu deveria cadastrar a senha em um caixa eletrônico. O problema é que isso não era possível, afinal, meu cartão não estava funcionando. Deadlock!
Fui a uma agência aqui em Niterói, que não é a minha. Então, a atendente me informou que não podia fazer nada. Só na minha agência mesmo (a propósito, qual o sentido do conceito de agência nos dias de hoje? Argh). Não adiantou explicar-lhe que minha agência fica a trezentos quilômetros daqui. O máximo que ela fez foi dizer que parecia haver uma pendência de cadastro na minha conta e que eu poderia ligar para a Central de Relacionamento. Mentira, como disse antes, nada de ser humano do outro lado se não tivesse senha. Nada de senha também.
Detalhe é que há alguns meses, você ligava para o BB Responde e era imediatamente atendido por um ser humano. Não tinha aquele atendimento automático irritante. Disse isso para a atendente e reclamei que as coisas estão piorando a cada dia. Ela disse que discordava. Que achava que estavam melhorando. Que estavam ficando mais modernas. Então, em sua homenagem, o título deste post. As coisas ficando mais modernas = os sistemas estão complicando nossa vida cada vez mais!
Depois de muito custo, consegui falar por telefone com alguém na minha agência. Fui informado que, o SISTEMA (sempre ele), havia suspendido meu cartão automaticamente porque o meu cadastro estava desatualizado. Eu deveria encaminhar meus dados atualizados. Eu disse que era o cúmulo do absurdo o sistema suspender um cartão automaticamente por esta razão, no que o gerente prontamente concordou e lamentou comigo: "mas é o sistema, né"? Depois é que lembrei que, na verdade, esta foi a segunda vez que isso aconteceu. A primeira foi ainda pior, eu estava na Alemanha e tinha acabado de tentar usar o cartão, sem sucesso. Por sorte, estava em um área com wifi e liguei para a minha agência via Skype. Dei uma chamada federal no gerente e ele reativou o cartão, com a condição que eu lhe enviasse as cópias de meus documentos atualizados assim que chegasse ao Brasil. O pior é pensar que esse problema é ridículo, perto do que o Tapa está enfrentando agora como Banco Real...
STB x cadastro antigo
Para fechar as pérolas dos últimos dias, essa aconteceu hoje. Fui ao STB para comprar um seguro médico internacional. Já tinha visto tudo na internet. Então, era só ir na loja, pagar e pegar a apólice. Teoricamente, esta seria uma operação rápida e não teria que levar quase uma hora, como foi o caso. A menos que houvesse um detalhe: o SISTEMA! Ao colocar meus dados no sistema, a atendente descobriu que eu já estava cadastrado. Usei outro serviço deles há dez anos, então, meus dados estavam lá, porém desatualizados. Conseguir fazer a atualização levou uma eternidade. Por que? Bug, como sempre! A certa altura, ela foi brindada com uma daquelas lindas telas de erro do ASP, com erro de acesso ao banco de dados e tudo mais que se tem direito. Neste ponto, já havia três atendentes tentando, freneticamente, contornar a situação. Comecei a conversar com uma delas sobre isso e ela me informou que o sistema era novo e que vivia dando dor-de-cabeça. E lá estava eu sendo vítima, mais uma vez, de péssimas práticas de desenvolvimento.
Os casos que relatei acima não foram os únicos que aconteceram comigo nos últimos dias. Foi só o aperitivo e foi light. No caso do IR, por sorte eu tinha outros computadores por perto e conhecimento para tratar a questão. No caso do STB e da Continental, por sorte eu não tinha nenhum compromisso urgente que me impedisse de esperar o tempo necessário. No caso do BB, por sorte eu tinha dinheiro na carteira quando o cartão foi suspenso e, também por sorte, consegui falar com alguém na minha agência, por telefone. Para a maioria das pessoas, os inconvenientes do dia-a-dia, causados por sistemas buguentos, tendem a ser bem piores e ter conseqüências mais graves.
A cada dia que passa, à medida que a sociedade vai ficando cada vez mais "moderna", fico cada vez mais preocupado e assustado com o nosso futuro. Estamos cada vez mais dependentes de sistemas, mas as práticas de desenvolvimento parecem continuar na pré-história. A razão pela qual falamos tanto de testes é porque isso é o mínimo necessário para fazer qualquer coisa razoavelmente séria no mundo do software. Nós somos vítimas da falta deles diariamente e vamos ser cada vez mais se não melhorarmos nossas práticas. Lembre-se, a vítima do seu software pode acabar sendo você mesmo! Cuide bem dele.
A sim, mas o seu chefe não deixa, né? Ele diz que é muito preocupado com qualidade, mas, na prática, só olha o prazo. A qualidade que se dane. Ok, tenho que admitir, isso sim é o que mais me assusta. O bando de chefes idiotas que simplesmente não compreendem a gravidade dos seus atos. É uma tristeza que você, na qualidade de programador, coloque software bugado na rua. Mas, é infinitamente mais triste, preocupante e assustador que o seu chefe te obrigue a isso, não pelas palavras, mas pelas ações. Que mundo é esse que estamos construindo para nós?





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Comentários (17 até o momento)
Marcos Silva Pereira disse aproximadamente 6 horas atrás:
Vinícius Teles disse aproximadamente 7 horas atrás:
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BrunoPedroso disse aproximadamente 16 horas atrás:
Guilherme Cirne disse aproximadamente 18 horas atrás:
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Ricardo Cardim disse 6 dias atrás:
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priscilla disse 17 dias atrás: